
Uma lista interminável de artistas célebres, parte deles portadores de graves transtornos psíquicos, parece confirmar o ponto de vista de Platão, que mostrara acreditar numa espécia de “loucura divina” como base fundamental de toda criatividade. Vincent van Gogh, Paul Gauguin, Lord Byron, LievTolstói, Serguei Rachmaninov, Piotr Ilitch Tchaikóvski, Robert Schumann - o célebre poder criativo de todos eles caminhava lado a lado com uma instabilidade psíquica claramente dotada de traços patológicos. Variações extremas de humor, manias, fixações, dependência de álcool ou drogas ainda hoje atormentam a vida de muitas mentes criativas.
A pequena prodígio de Fairville não fora exceção. Tintas, telas e pincéis que se combinam para revelar infinitos aspectos estéticos e poéticos. O metal bruto, que derretido vai para o molde e ganha formato. Com pouca idade e ainda ansiando pelo futuro, Chantal Richardelli é renomada em Fairville pelo seu talento precoce. Aos 13 anos fora diagnosticada com transtorno dissociativo de identidade e mantém-se lúcida à base de remédios. Entretanto, quando sua melhor amiga e ela vêem-se reclusas num triângulo doentio, quem será vítima da loucura? Decesso, alienação e uma culpa iníqua.

O dia em que Chantal Richardelli falou demais. (spoiler!!!)
E o tempo volta a não dar tréguas, o tic-tac regular do relógio não cessa, os minutos correm, insopitáveis.
Também minhas lágrimas não sustaram. Descem em catadupa pela minha face lívida coberta de cicatrizes do passado.
Dizem que só damos valor às coisas quando as perdemos… E por vezes, quando damos conta, já não vamos a tempo. Sim, porque tudo é efémero e num cândido pestanejar, o tempo foge imparável e de um momento para o outro, perde-se tudo. Tudo nos é retirado violentamente pelo tempo e o que outrora nos fez sorrir, hoje não o fará mais.
Já não foco o que outrora não soube ver, já não entendo o que outrora me esforcei por ignorar, já não sinto o que procurei esquecer. Escolhi o sofrimento puro, como sempre hei de escolher; aquele do qual sempre esperei o real. Mais puro, mais certo, mais fiável.
E no fim só as lágrimas nos salvam, ou melhor, só elas nos suportam.
Fartei-me de confiar em sentimentos contraditórios e emoções traiçoeiras; cansei-me de me fiar em realidades ilusórias; desisti de acreditar no que achei ser positivo e benéfico para mim.
Desisti de esperar o melhor dos outros quando só recebia o pior. Desisti dos outros e desisti de mim. Dos meus sonhos e desejos. Tudo voou, tudo me escapou por entre os dedos, tudo evadiu. Se sinto falta? Por vezes. Mas depois relembro-me das falhas, dos erros, dos riscos. Volto a perceber que tudo o que é nosso tem a mania de nos ser retirado, tudo o que criamos é nos roubado sutilmente pelas mãos do destino.
A solidão preencheu-me mesmo não estando sozinha. O vazio ocupou-me mesmo tendo motivos para me sentir cheia. A tristeza consome-me, apesar do motivos que tenho para que a felicidade leve a melhor.
Desisti como sempre fiz.
Torna-se mais fácil suportar este esgotamento constante que a pressão para ser melhor.
Não sou melhor! Sou fraca! Assim me fizeram. Obrigaram-me a isto, fizeram de mim esta pessoa… Porque todas as cicatrizes perderam o valor e todas as promessas voaram com o tempo. Porque não restou nada. Tudo aquilo a que me agarrei desapareceu e tudo o que quis… sumiu.
O pesar reprofunda no meu âmago.